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Elisabete Simões Oliveira

Elisabete Simões Oliveira

Em 2008 uma semana no alentejo deu-me a conhecer a Elisabete. Dessa semana ficam as memórias e apenas alguns amigos, e a vida fez com que poucas vezes me voltasse a cruzar com a Elisabete. Mas quando pensei em alguém para dar a cara por esta entrevista a primeira pessoa que me “saltou” à memória foi ela. Tive algum receio que não aceitasse, mas o seu sim foi imediato e agora tenho a certeza que não podia ter escolhido outra pessoa para partilhar a experiências de dois anos de voluntariado, em Moçambique. 

Nome: Elisabete Simões Oliveira

Idade: 30

Profissão: Psicóloga

Com que idade começa a fazer voluntariado: Até ter vivido esta experiência, colaborava pontualmente em algumas iniciativas, recolha de alimentos, explicações, mas nunca tinha integrado nenhuma actividade/instituição mais organizada e durante um período tão alargado de tempo.

É previsível mas inevitável a pergunta do que leva uma pessoa tão jovem a abdicar de dois anos de vivência com a família, amigos e uma carreira profissional e ir 2 anos numa missão? Sempre tive o desejo de desenvolver um projecto desta natureza, vontade de durante um determinado tempo sair da minha zona de conforto e me entregar a algo maior que as minhas circunstâncias. Vontade também de conhecer outras realidades e poder apoiá-las e sobretudo capacitá-las para promover a longo prazo a sua independência e liberdade. Não sinto este tempo de missão como um abandono da minha vida, mas como uma escolha, que como todas as escolhas, implicou, que por entre alguns medos, tivesse que estar preparada para abdicar do que ficou e abraçar tudo o que me foi dado noutras coordenadas. Neste processo, a formação que recebi antes de partir através dos Leigos para o Desenvolvimento revelou-se fundamental para este discernimento e encarar com serenidade esta decisão. Pôr-me à disposição para partir, colocar-me ao serviço, foi uma forma de agradecer o tanto o que fui recebendo ao logo da minha vida.

Como conheceu os Leigos para o Desenvolvimento e o que a faz tomar a decisão de ir em missão para Moçambique? Sempre alimentei o desejo de um dia fazer missão e quando conheci os Leigos para o Desenvolvimento identifiquei-me com os valores e o trabalho desenvolvido pela Organização. Imaginei que o faria imediatamente quando acabasse a minha licenciatura, no entanto quando terminei o curso surgiram outros projectos e o sonho foi sendo adiado. Em 2009 tive finalmente coragem de começar a formação dos Leigos para o Desenvolvimento (LD), que foi um ano de crescimento, um ano de confirmação de que esta era a minha missão. Não fui eu que escolhi ir para Moçambique, nos LD somos seleccionados para o local de Missão em função do nosso perfil e foi assim que em Outubro de 2010 cheguei a Moçambique (Niassa) onde fiquei até Novembro de 2012.

Quando se fala de voluntariado, penso que a curiosidade é geral e enorme de saber como é o dia de um voluntário, no seu caso em Moçambique, desde manhã até ao fim do dia? Por Moçambique os dias assumiam muitas vezes um carácter de imprevisibilidade e são muitas as vezes em que os planos se alteram, porque alguém sofreu uma infelicidade (como se diz quando alguém próximo faleceu), porque alguém está incomodado (por aqui é assim que se diz que se está doente) ou então porque está a chover de tal forma que é impossível ir onde quer que seja. E se explico isto, é porque estas situações são mesmo muito frequentes. Mas ultrapassando a imprevisibilidade dos dias, há também muito constante e se mantém sobretudo no que diz respeito à vida comunitária. Quando partimos pelos Leigos para o Desenvolvimento, não partimos sozinhos e os ritmos, os horários são todos coordenados e definidos em comunidade (as pessoas com quem vivemos).
Acordava-se cedo, 06h30 da manhã era o despertar habitual e entre visitas às comunidades onde tínhamos escolinhas, preparar o que se ia fazer no dia a seguir, enviar algum relatório ou informação para Lisboa, sair para visitar uma machamba (quinta) ou conversar com a comissão de pais de uma escolinha sobre o seu funcionamento, os dias eram cheios, mas ao contrário do que se passa desse lado desse hemisfério, eram dias onde quase nunca me faltava tempo.

Muito se ensina quando se é voluntário, mas acredito que também se aprende muito. Pode partilhar connosco algumas das coisas que aprendeu com a missão? Define-se de uma forma diferente antes e depois da missão? Há muitas coisas que sinto que estão inevitavelmente diferentes em mim, a que me ocorre de imediato é a maior capacidade de me colocar no lugar do outro, de respeitar os seus ritmos. É inevitável que estar noutros contextos, totalmente diferentes, daquele onde crescemos, nos obrigue a perceber a relatividade de tudo o que antes e de uma forma quase dogmática tínhamos como certo, isso dá-nos flexibilidade e consciência da imensidão do mundo que existe para lá do nosso.

Consegue descrever o que é ser voluntário? A experiência de voluntariado é uma experiência transformadora e estou cada vez mais convencida de que ser voluntária em África ou num projecto que fica mesmo ao lado da nossa casa terá sempre essa capacidade, a de nos transformar, porque nos deixamos tocar por um mundo e por realidades infinitamente maiores que a nossa e isso nos leva a viver com mais serenidade os nossos desafios. Estar para os outros, num caminho percorrido lado a lado que se alimenta de entrega e reciprocidade. Dar parte do nosso tempo a uma causa em que acreditamos é a forma mais privilegiada que conheço de nos encontrarmos, ir para além do nosso mundo, revestir os nossos passos de um propósito maior que as nossas vontade e entender qual o sentido do que vivemos hoje e do que queremos viver.

Como diz Mia Couto, “o que faz andar a estrada é o sonho, enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva”. Qual é o seu sonho? O meu sonho? Que os meus sonhos nunca acabem e não cessem nunca de me surpreender… Afinal, ”é sempre pelo sonho que vamos”…

Esta entrevista é escrita para um blog de imagem que procura o lado humano e partilha de experiências com estas pequenas entrevistas e torna-se imperativo uma questão sobre imagem. E a primeira pergunta que me “assalta o pensamento” de imediato é saber o que é moda e imagem para aquelas crianças, mães, famílias. Como vêm a moda e como a definiriam? Sabendo que estamos a falar de pessoas com grandes carências de estudos, cultura… O que é para essas pessoas um blog de moda, por exemplo? Arrisco ir mais longe ainda e perguntar se este tipo de informação poderia mudar de algum modo o bem-estar daquelas pessoas? As diferenças entre as realidades são muito grandes, sobretudo no que diz respeito ao acesso a bens que temos como essenciais, sendo que em Moçambique também já começa a existir uma diferença significativa entre as pessoas que vivem nas comunidades rurais e as que vivem nas cidades e cujas preocupações, roupas, formas de comunicar, acesso a informação (nomeadamente blogs) já assumem semelhanças com o que se passa por cá. Nas comunidades rurais as mulheres andam sempre vestidas com capulanas amarradas à cinturas (panos com padrões e cores muito fortes) e utilizam diversos produtos naturais para fazer tratamentos de beleza, nomeadamente, o m’siro, um pó de origem natural que deixa a pele macia e aveludada e que as mulheres utilizam com frequência no norte. É também ainda muito comum, as pessoas andarem descalças, sendo os sapatos guardados para ocasiões especiais, vinda à cidade, missa ou uma festa, daí estes serem tão valorizados. Apesar do contexto de grande carência, a verdade, é que se vive e se sente em Moçambique uma profunda ligação das pessoas a tudo o que as liga à Vida, nomeadamente a música e roupa e outros cuidados, que a partir do que é possível e com muita criatividade, escolhem criteriosamente para cada ocasião. Porque o dia de hoje é o que conta, “o amanhã já não lhes pertence…”

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Cláudia Cordeiro

Licenciada em Direito, com pós-graduação em Práticas Forenses e em Prática Notarial. Em 2013, frequentei o Curso de Consultoria de Imagem da Blossom e assim nasce o projecto de Consultoria de Imagem & Styling by Cláudia Cordeiro.

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